Ciclo de Conferências Mário Moura
CONFERÊNCIA
Sáb 17 Dezembro
Pequeno Auditório
18h30 · Entrada gratuita
Pioneers of Modern Typography, de Herbert Spencer (Lund Humphries, 1969)
A importância deste livro talvez se possa avaliar por uma anedota do pós-
-punk, provavelmente apócrifa: em 1978, quando Peter Saville, então um jovem estudante de design, foi pedir emprego a Tony Wilson, o fundador da Factory, não levou um portfólio do seu próprio trabalho, mas uma cópia deste livro, roubada na biblioteca da escola, dizendo que, se fosse contratado, queria fazer trabalhos como aqueles. Muita da obra posterior de Saville não desmentiria esta primeira provocação, citando e roubando sempre que possível o design mostrado em Pioneers. Num certo sentido, a anedota resumia bem o espírito de uma época marcada pela apropriação, pela citação e pelo historicismo, época a que o crítico cultural Jon Savage viria a chamar “the age of plunder”, num ensaio com esse título, publicado na revista The Face (onde usava como exemplo as capas de discos de Saville).
Pioneers mostrava a história de uma maneira nova, dessacralizando-a e tornando-a acessível à apropriação. Os trabalhos apresentados, todos de designers modernistas, não são mostrados como documentos, isolados por uma margem branca, identificados claramente com uma legenda, mas como objectos vivos, quentes, sem fronteiras definidas à partida, confundindo-se com as suas legendas e com o próprio texto de Spencer. Não se tratava de reproduzir originais, mas de os reencenar através do uso de técnicas de impressão exóticas e tácteis, de diferentes papéis e de reenquadramentos ousados. A estratégia foi criticada na época por não mostrar o devido respeito pelos mestres, no fundo por não corresponder às convenções de reprodução de imagens num catálogo. A transgressão acabaria por se revelar produtiva, pelo menos no caso de Saville.
A partir deste exemplo, Mário Moura irá abordar o ideal modernista do “livro integrado”, onde a interacção estreita entre imagem e texto serve de suporte a uma nova forma de sociedade, um ideal que foi posto em prática em livros de László Moholy-Nagy, como The New Vision e Vision in Motion, nos guias de viagem concebidos por Chris Marker, ou nos atlas de Herbert Bayer.